STATEMENT

Antes da forma, existe o caos

A pintura, para mim, é um lugar onde o caos pode encontrar forma sem deixar de ser caos.

Minha pesquisa parte de uma inquietação simples: como a experiência humana constrói aquilo que somos?Acredito que não nascemos prontos. Somos atravessados por emoções, relações, memórias, perdas, desejos, descobertas e pelo próprio tempo. Essas experiências chegam até nós de maneira desordenada, como um campo de possibilidades ainda sem forma. É desse lugar que nasce uma das ideias centrais do meu trabalho: caos não é erro, é origem.

Na pintura, procuro tornar visível esse processo de construção. Trabalho por camadas, sobrepondo pensamentos, símbolos, palavras, manchas, cores, gestos e texturas. As camadas não apagam completamente o que veio antes; elas incorporam vestígios das decisões anteriores, criando uma espécie de sedimentação da experiência.

A figura humana frequentemente ocupa o centro desse processo. É dentro dela que concentro a maior complexidade visual, enquanto o espaço externo tende a permanecer mais silencioso. Essa escolha nasce da percepção de que muitos dos conflitos que nos transformam acontecem de dentro para fora: aquilo que podemos elaborar, compreender e transformar em nós diante de um mundo que também é atravessado pelo tempo, pelo acaso e por forças que não controlamos.

O erro também encontra espaço nesse processo. Não como algo a ser celebrado, mas como parte inevitável da construção. Escrevo deliberadamente com a mão não dominante, distorcendo, desalinhando e, por vezes, invertendo as letras. Retiro da escrita o domínio técnico que aprendi para permitir que o gesto revele sua própria instabilidade. Assim, a palavra deixa de ser apenas linguagem e passa a ser também vestígio do processo.

A cor, o gesto, a escrita, o acaso e a matéria funcionam como evidências de uma transformação que nunca está completamente concluída. Memória, tempo, relações, identidade e ambiente aparecem em diferentes séries porque são diferentes manifestações de uma mesma investigação: a maneira como aquilo que vivemos se sedimenta em nós e participa da construção de quem somos.

Não busco representar uma experiência já compreendida. Pinto para investigar aquilo que ainda está se formando.

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